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SLAM e DIVÓRCIO EM BUDA

          

Slam, livro do sempre divertido Nick Hornby é muito bom para quem é ou tem filho adolescente. Eu achei chato a maior parte do tempo, com uma ou outra coisinha interessante. Slam é a história de um adolescente fã de skate, daí o nome do livro que significa tombo na gíria do skate, que repete a história dos pais e vira pai adolescente.

Com todas as referências pop que o autor adora, o livro fica muito aquém dos trabalhos anteriores dele mas pode virar um bom filme, como os todos os outros.

Já Divórcio em Buda é um livro maravilhoso do maravilhoso Sándor Márai, mesmo autor de De verdade igualmente maravilhoso. Sándor Márai é uma descoberta recente e espero ler todos os livros dele. Sou capaz de aprender húngaro para não perder a oportunidade de vivenciar uma leitura que fala da alma humana de uma maneira simples e profunda. Ele tem uma escrita elegante, de uma melancolia sofisticada e nos apresenta um juiz, o juiz Kömives. Um homem íntegro, correto, honesto, imparcial, que reflete sobre o mundo as vésperas de uma guerra e sobre a decomposição da sociedade húngara dividida em Buda e Peste.

Conhecemos profundamente o juiz com a descrição minuciosa de Sándor Márai. Conhecemos e admiramos a força da sua convicção e as suas dúvidas. Um personagem mais do que interessante, um personagem fascinante.

O juiz está prestes a julgar o divórcio de um casal seu conhecido e o encontro dele com o marido é o centro do romance.

O impacto das revelações explica a angústia do personagem do juiz e o seu mal-estar existencial.

Livro excelente sobre as relações humanas e o mistério do amor.

Durante e depois da leitura tive inveja. Fiquei pensando que houve uma época em algum lugar do mundo, talvez até aqui mesmo, em que o juiz era alguém com uma missão: a missão de julgar os conflitos com imparcialidade. De ser um homem correto. Mais correto do que todo mundo, acima das vaidades, com um senso cívico do dever e a vontade de servir a sociedade com um salário modesto. Tive uma vontade enorme de comprar o livro e enviar de presente para Gilmar Mendes. Mas seria inútil, ele não se reconheceria como o contrário do juiz Kömives e tendo acompanhado pela TV a sessão que inocentou o ex-ministro Antonio Palocci, senti V.A. por ele. (V.A.=Vergonha alheia)

Trecho:

"Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite, enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? Agora, quando vim ao consultório? Ou muito, muito tempo atrás, apenas não percebemos? E continuamos a viver, a falar, a nos beijar, a dormir juntos, a procurar a mão do outro, o olhar do outro, como bonecos animados que continuam a se movimentar ruidosamente por um tempo, mesmo estando a mola do seu mecanismo quebrada... O cabelo e as unhas do morto continuam a crescer, talvez as células nervosas ainda sobrevivam quando os glóbulos vermelhos já estão mortos... Nada sabemos. O que posso fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?"



Escrito por Lio às 18h32
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