O filme Tomboy é tão delicado, mas tão delicado que é surpreendente que seja uma história sobre como nascem o preconceito e a intolerância. Sem discursos panfletários e sem levantar a bandeira de nada.
Apenas conta a história da garota Laure (Zoé Héran) que ao se mudar para um novo condomínio com os pais, e a irmã menor. A mãe está grávida e a família é legal, amorosa.
Ao se apresentar aos novos vizinhos de sua faixa etária, Laure prefere se passar por um menino e usa o pseudônimo Michaël.
Como tem apenas dez anos, a falta de curvas em seu corpo facilita o disfarce, mas não a livra de situações em que precisará de jogo de cintura para manter a farsa. Laure não tem problemas em jogar futebol no time sem camisa. No entanto, quando todos procuram um muro para se aliviar, ela precisa inventar uma desculpa e se afastar do grupo. Em outras situações mais difíceis, usa a criatividade e consegue se sair bem.
Laure gosta de Lisa (Jeanne Disson), uma menina do condomínio. E Lisa gosta de Laure sem saber que ela é menina.
E tem a fofíssima irmãzinha de Laure, Jeanne (Malonn Lévana) que descobre a farsa e, como acha conveniente ter um irmão mais velho para defendê-la dos perigos do mundo ou seja: das provocações das outras crianças, ela entra no jogo e fica calada. Na pureza de criança, age de forma natural e acha tudo muito divertido. Ela não julga, apenas aceita.Ela ainda não foi contaminada com argumentos de preconceito e ódio.
O elenco mirim é impressionante e nisso está a força do filme. Em atuações convincentes e seguras, as crianças dão um show de talento o que garante a autenticidade da história e do filme. Sem a atuação perfeita das crianças o filme não seria tão bem sucedido.
O filme traduz as descobertas e dúvidas da pré-adolescência cada vez mais precoce o que não é uma tarefa fácil e ainda mais difícil do que isso, é enfrentar o tema da descoberta da identidade sexual.
Uma linda defesa da diversidade sexual e contra o preconceito e a homofobia reinante no mundo atualmente. Lindo. Mesmo.
Zapeando, como sempre, numa recente noite de insônia, me deparei no Telecine Cult com um filme já começado e primeiro, fiquei fascinada pela atriz, lindíssima. Reconheci imediatamente os traços árabes. Em seguida fiquei fascinada com o ator ( conheço ele de outro filme, qual?) e logo depois, com o filme todo.
Nossa! Que filme bom é esse? Adoro isso: ver o filme, na TV ou no cinema, sem saber nada sobre ele.
Assim que o filme terminou, lá para as três da manhã, corri para o nosso amigo de todas as horas, o Google, para saber tudo sobre o filme, os atores, o diretor...
Fiquei sabendo que a atriz Sibel Kekilli é alemã de origem turca. Ela é ótima atriz, muito linda e antes de se firmar na carreira e ganhar prêmios com esse trabalho, ela fez filmes pornôs!! E por causa disso, ficou proibida de voltar a Turquia. Oxente, Turquia! É assim que quer entrar na moderna União Europeia? Claro que procurei os tais filmes pornôs no Youtube e não achei. Bom, ela tem a melhor bunda de todas as mulheres que já vi nuas no cinema.
Fiquei sabendo de onde eu conhecia o ator, Birol Ünel. Ele fez o divertido filme Soul Kitchen (comentado aqui). Também é alemão de origem turca. Um feio bem sexy. Eles formam um casal muito estranho e legal. Ele faz um personagem totalmente diferente do chef temperamental de Soul Kitchen. Agora é um bad boy, amargurado, apaixonado e ciumento.
Excelente filme. Um filme simplesmente arrebatador. Inês lembrou que viu no cinema. Eu não vi e nem sabia que existia.
A sinopse é a seguinte: Sibel (Sibel Kekilli) é uma bela moça muçulmana de 20 anos de idade. Em uma clínica de recuperação, após uma tentativa de suicídio, ela conhece Cahit (Birol Ünel), um rapaz que também tem raízes turcas. Os jovens decidem se casar formalmente, apenas como um meio de permitir que Sibel escape das regras estritas de sua família conservadora. Embora ela tenha uma vida sexual independente, eles resolvem dividir um apartamento. Cahit aceita a situação no início, mas se apaixona e, num acesso de ciúmes, mata um dos amantes da companheira. Depois de cumprir pena, Cahit reencontra Sibel, ainda acreditando que eles podem ter um futuro em comum.
O filme é regado a baladas, doideiras, drogas, sexo e rock and roll mas tem um romantismo, uma sensibilidade, uma ternura...
Tem como pano de fundo a questão da imigração turca na Alemanha com uma geração de filhos de imigrantes divididos entre duas culturas opostas: a educação rígida da família turca e a modernidade do país mais rico da Europa.
O que seria uma óbvia história de amor mostra personalidades carentes e perturbadas em reviravoltas desconcertantes.
Nenhuma cena é gratuita, mesmo as mais violentas. O filme é hipnotizante. É impossível desviar o olhar mesmo nas cenas mais chocantes, ou até ir ao banheiro, tal a força dos atores e de seus personagens.
O livro “Canalha, Substantivo Feminino" da jornalista Martha Mendonça é divertidíssimo e tem histórias perfeitamente verossímeis. Ou não?
São seis histórias de mulheres canalhas entre 20 e 48 anos que descreve as artimanhas e maldades femininas para dobrar os homens e destruir rivais.
Não sabemos muito sobre as mulheres, apenas o nome, a idade e a profissão. Tem Larissa, 20 anos, ex estagiária, que tem o prazer de destruir o casamento do chefe metido a conquistador apenas para se divertir. Tem Ângela, 42, produtora de eventos, que convence o marido a brigar com o irmão. Tem Mariana, 33, arquiteta, se vinga da ex-colega de escola e fica com seu marido e outras mulheres mais malvadas ainda.
Segundo a autora, em entrevista a Mauricio Stycer, o tema foi escolhido porque ela nunca se conformou com os clichês de gênero: “Homens canalhas, mulheres vítimas; homens gostam de futebol e mulheres de compras em shopping; homens se arrumam em 15 minutos e mulheres em duas horas; homens dão amor pra ter sexo e mulheres fazem sexo pra ter amor. Isso tudo me entra debaixo da unha… e uma coisa que eu temia (temo, na verdade) é acharem que eu estou dizendo que as mulheres, como grupo, são canalhas, ou que são mais canalhas do que os homens. Não. O que eu quero dizer é que as mulheres também PODEM ser canalhas. Simplesmente porque as mulheres podem tudo. Agora, o que eu espero mesmo do livro é que as pessoas se divirtam. É ficção, literatura, entretenimento”
Concordo, Martha. Adorei o livro. É muito interessante e divertido.
É como aquela famosa frase dita por Mae West no filme “Não sou santa” de 1933: "Quando sou boa, sou ótima. Quando sou má, sou melhor ainda!"
Vi ontem no Telecine Cult o filme argentino Aura. Muito bom. Não excelente como os últimos filmes argentinos comentados aqui. Com Ricardo Darin. Vi por causa dele. Ele sim, excelente.
É uma mistura de drama com suspense psicológico dirigido pelo mesmo diretor de Nove Rainhas, Fabián Bielinsk, que morreu prematuramente de infarto quanto estava divulgando o filme em São Paulo em 2006. Uma pena.
O filme é lento, com poucas falas mas a trama prende a partir do momento em que Esteban, o personagem de Darin, um tímido e calado taxidermista, mata um bandido por acidente, descobre um plano para um outro crime e passa a conviver com bandidos perigosos e mau encarados.
A fotografia escura, a trilha sonora, uma paisagem natural com uma mata fechada e assustadora e a interpretação intimista e cheia de nuances de Darin, nos deixa hipnotizados e absortos pela história. O nome do fime “ Aura” vem de um termo médico que significa um conjunto de fenômenos sensoriais que precedem uma crise convulsiva de uma pessoa epilética, doença de Esteban. A cena em que a doença se manifesta é previsível e inverosímel mas ainda assim, não estraga o clima noir do filme.
Gostei. E Ricardo Darin é o melhor ator em atividade no cinema na América Latina. E o mais bonito também.
Mais um ótimo filme argentino. E nós, brasileiros, ainda temos rixa com a Argentina por causa de futebol (!!).A rixa tem que ser por causa do cinema! E ainda por cima eles têm Ricardo Darin, o mais bonito argentino de todos que já conhecemos.
O filme é excelente e divertidíssimo!
Começa com uma vaca caindo do céu e os créditos iniciais informam que é baseado em uma história real.
Como assim, boludo?
Somos apresentados a Roberto, personagem de Darin, dono de uma casa de ferragens que leva uma vida pacata, até ver sua rotina (e seus nervos) ser alterada com a chegada de um chinês desconhecido. E ele não tem escolha: tem que ajudar o chinês que não fala nada de espanhol e está em busca de um tio que mora em Buenos Aires.As situações que se sucedem deixam o comerciante sem escolha. Ele precisa mesmo ajudar.
A partir daí, esta comédia dramática usa e abusa do carisma e talento de Darin para criar situações inusitadas e divertidas.
Ele é um solitário, neurótico de guerra – lutou nas Malvinas – metódico, ranzinza, repetitivo, mal humorado mas com um grande coração e isso o salva de ser odiado pelo público porque ele é muito irritante. Muito. Do tipo que de tão irritante torna-se engraçado sem querer.
A incomunicabilidade, principalmente porque as falas do chinês em mandarim não são traduzidas, foi o que achei mais interessante. Achei perfeito. Seria muito óbvio legendar as falas do chinês e deixar claro logo de cara, um contraponto do chinês fofo x irritante argentino. Não precisa de tradução para a gente saber que ele é mesmo um fofo.
E tem o choque cultural que sempre é divertido e rende boas histórias, seja no cinema, na literatura ou na vida real.
Gostei muito. Depois da cena crucial, tem uma suavidade...
Só achei o final fraco mas não tira o divertimento do filme que é o maior sucesso argentino do ano – com mais de um milhão de espectadores naquele país.
“ O sonho do Celta” é mais um extraordinário livro de um dos meus autores preferidos: Mario Vargas Llosa. Autor do meu livro preferido: “Tia Júlia e o escrevinhador”. Eu amo esse livro e sempre que releio, é como se fosse pela primeira vez. É o livro que acho mais engraçado e divertido. Dou gargalhadas com as histórias de Pedro Camacho, um dos meus personagens mais amado de todos os tempos.
“O sonho do Celta” não tem nada de divertido. Baseia-se na vida real do irlandês Roger Casement, cônsul britânico no Congo belga, noinício do século XX, que durante duas décadas denunciou as atrocidades do regime de Leopoldo II, o monarca da Bélgica.Este homem, amigo de Joseph Conrad (e que o guiou numa viagem pelo Rio Congo, revelando-lhe uma realidade mais tarde retratada no romance Coração das Trevas), teve uma vida extraordinária, plena de aventura. Casement foi um defensor dos direitos humanos, como também o comprovam os relatórios que redigiu durante a estadia na Amazónia peruanae no fim da sua vida militou no nacionalismo irlandês, acabando condenado à morte por traição e executado.
Um romance histórico e épico fruto de um trabalho impressionante de pesquisa. Aliás, pesquisa é uma das obsessõesdeclaradas de Vargas Llhosa e essa particularmente, mostra-se exaustiva com todos os detalhes e inúmeros documentos, que tem como objetivo reconstruir a vida e a trajetória de um personagem incrível: o irlandês Roger Casement.
Casement era um idealista e embora não sabemos o quanto háde verdade ou de ficção na narrativa de Vargas Llhosa, o fato é que ele viveu e vivenciou um mundo cruel, de ganância desmedida e ambição material sem limites e lutou o contra a exploração do homem pelo homem e do homem branco contra os nativos e indígenas.
Depois de tudo que viveu na África e na Amazônia peruana onde também denunciou os maus tratos e a crueldade contra os índios, afastou-se da diplomacia britânica e passou a lutar pela independência irlandesa.
Era homossexual e enquanto estava preso, foi alvo de campanhas difamatórias, que o acusaram de todo um repertório de atos obscenos e conduta pornográfica.
Gostei muito e apesar de ter ficado com o estômago revirado algumas vezes por causa de todas as maldades, é um livro maravilhoso, escrito com o cuidado e a competência de um Nobel de literatura, de Mario Vargas Llhosa.
Um dos melhores filmes que vi o ano passado e pouco comentado. Ao contrário do que o título em português sugere não é a história de um amor eterno. É a história de um amor. Ponto.
Otítulo brasileiro do filme. “Namorados Para Sempre” tenta enganar o espectador que busca um romance comum. O título original é“Blue Valentine”, uma expressão americana que significa algo como “namorado triste”,
Protagonizado muito bem pelos atores Michele Williams e Ryan Gosling, o novo lindinho e queridinho de Hollywood e claro, da América, o filme conta a história de um casal, Cindy e Dean, que se apaixona quando ela está grávida de outro, um babaca, e ele assume a paternidade de uma maneira incondicional. Como todo amor, no início, é tudo lindo e muito romântico. Mas, sabem como é, o cotidiano, os vícios, as responsabilidades, as pressões, a família, a falta de dinheiro, de perspectiva, enfim, a vida, não permite, que sejam namorados para sempre.
O amor começa a desandar e vemos na tela a morte lenta e inexorável do amor. E a morte do amornos deixa arrasados. Então é assim? Não tem jeito? Puxa...
O filme é incômodo para quem curte o amor romântico,esse ideal surgido nas últimas décadas do Século XVIII e que perdurou em grande parte do Século XIX e sobrevive até hoje graças principalmente ao cinema e a dramaturgia.
Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento e o espírito romântico passa a designar toda uma visão de mundo, centrada no indivíduo. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. Se o Século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do Século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu. (Fonte: Wikipédia)
Histórias de amor é o tema preferido das artes em geral e em particular do cinema mundial principalmente ode Hollywood. E quem não gostaria de viver um romance como os de Hollywood? Fazendo par romântico com George Clonney? Com final feliz?
Mas encontrar a pessoa certa, ser correspondido, iniciar o relacionamento e sustentá-lo até o fim da vida ou pelo menos que seja eterno enquanto dure está a cada dia mais difícil. O filme “Namorados para sempre” também tem essa fantasia mas cenas paralelas mostram uma linha do tempo que desmorona e coloca o amor na vida cotidiana e aí, ele não agüenta o tranco.
Conhecemos o casal jovem e cheios de paixão, não apenas um pelo outro mas pela vida, a vida toda pela frente. Os anos passam... e os reencontramos casados, o amor acabou, a separação é inevitável e nos perguntamos: o que aconteceu?
Não há quem não se identifique com a morte de um amor e sentimos toda a dor e amargura dos personagens. Ficamos pensando: será que esse amor não poderia ser salvo? Tinha tudo para dar certo! E o mais dolorido: não há culpados.
Tudo isso vai contra o cinema americano comercial que estamos acostumados, com final feliz, o que é chato e previsível. Mesmo incomodados e com uma mistura de sentimentos emrelação ao filme, gostamos de ver a verdade, pelo menos, a verdade defendida no filme.
O mais interessante é constatar que, assim como na vida real, o comportamentode um ou do outro que antes era uma bobagem agradável, com o passar do tempo, torna-se insuportável e o que era uma qualidade, vira um defeito. Como a imaturidade de Dean, por exemplo. Antes era um charme, depois um peso difícil de carregar. E por aí vai...
Enfim, um filme para lembrar que o amor é lindo mas nem tudo são flores. E quando o amor acaba,nunca é fácil para ninguém. Mesmo embalado com a trilha sonora de Grizzly Bear, uma banda americana de indie rock, fofa.
O aclamado CD “Nó na orelha” do rapper paulistano Criolo é uma obra prima da música brasileira. Um dos Cds mais lindos que já ouvi na vida. Lançado em 2011 e desde então, estou apaixonada. Tem a cara da cidade de São Paulo e a cidade de São Paulo é linda.
Foi o artista mais premiado no Video Music Brasil da MTV em outubro e até surpreendemente homenageado, por Chico Buarque, na estréia de sua turnê, em Belo Horizonte, quando incluiu versos do rapper em “Cálice”.
O CD é uma mistura de samba, afrobeat, reggae e, é claro, rap. Maravilhoso.
Dizem que o rap é o novo rock. Que os bem jovens gostam de rap. Rock agora é para quem tem 30 anos ou mais. Não sei. Vejo muitos jovens gostando de rock.
Gosto de todas as músicas do CD mas especialmente “Não existe amor em SP”. O que discordo. Existe, sim, amor e poesia em São Paulo, Criolo.
E esse CD é a prova disso.
RECANTO
Outro lindo trabalho lançado no final do ano passado é o novo CD de Gal Costa. Idealizado por Caetano Veloso exclusivamente com canções inéditas dele, o CD é lindo e Gal é Gal, uma verdadeira DIVA da música. No mundo estranho que vivemos, com divas fabricadas a cada momento, Gal é a certeza que deslumbra e encanta com o mesmo talento e a voz de sempre.
O CD é quase que todo feito sobre bases eletrônicas (só uma faixa é acústica) e o efeito da voz de Gal com a pegada eletrônica é sensacional.
Como todos sabem, sou muito fã de Caetano. Ouço Caetano (e Eric Clapton) quase todos os dias. E agora também Criolo e Gal.
Há tempos que não “encarnava” tanto assim em CDs. O que me traz um pouco a nostalgia da adolescência quando encarnava por um, na época, vinil, e ouvia desesperamente o dia inteiro, por dias seguidos.
O bom é que agora posso ouvir no Ipod e não incomodar ninguém. Lembro de um final de semana com minha tia Carminha, num sítio, lá pelos 13 anos, que “encarnei” num LP dos Beatles no volume máximo e quase que ela me devolveu antes do final de semana acabar.
Eu amo o cinema francês. Quem não ama? Provavelmente quem não conhece. O cinema francês tem sua marca registrada, seja na comédia ou no drama: situações cotidianas e comportamentais que traduzem a cultura e o modo de ser e de viver dos franceses, às vezes fugindo do estereotipo e outras vezes o confirmando mas sempre com um viés liberal e humanista.
Quem tem TV por assinatura e tem o canal 5 Monde, pode se deliciar toda noite com um filme francês. Infelizmente, no horário da meia noite e nem sempre consigo ver. Nem todos são bons. Alguns são péssimos mas já vi alguns que estão estreando agora por aqui como Copacabana e Minhas tardes com Marguerite..
No cinema, vimos no fim de semana Os nomes do amor que nem precisa saber francês para deduzir que o título original é Os nomes da gente e que esse título tem mais a ver com a história.
Uma deliciosa história de amor contemporânea que brinca com a recente política francesa, a imigração, o colonialismo e também abordaum tema sério como o genocídio judeu. Sempre de maneira leve e divertida e totalmente politicamente incorreta o que dá um charme a mais.
Também adoro a maneira, nos filmes e na vida real (lembrando o episódio do diretor do FMI) como os franceses encaram a traição. Sempre perdoada e sem grandes dramas. Eles encaram como algo normal, chato mas que acontece e trata-se apenas de perdoar e aceitar ou perdoar e seguir em frente com outra pessoa. Muito difícil para nós brasileiros. Aqui, traição é praticamente o fim do mundo ese mata por ciúme, não precisa nem da traição comprovada.Uma calamidade pública com mulheres morrendo todo dia como insetos. Fica meu protesto contra isso.
A história é a seguinte: filha de uma ex-hippie e de um imigrante argelino, Bahia Benmahmoud (Sara Forestier) aplica ao pé da letra a máxima dos anos 60: “Faça amor, não faça guerra”. Assim, ela se relaciona com homens que ela considera fascistas para mudar a visão política deles. Ela é bem-sucedida na sua missão até conhecer Arthur Martin (Jacques Gamblin), um quarentão aparentemente conservador e impossível de conquistar.
O que Bahia(que vive sendo confundida com brasileira por causa do nome) não sabe é que Arthur (que tem o nome de uma conhecida marca de eletrodomésticos) originalmente tinha outro sobrenome, relacionado com sua verdadeira origem. Ótimas e engraçadas situações e ótimos atores
O SENHOR SWEDENBORG E AS INVESTIGAÇÕES GEOMÉTRICAS
Mais um africano/português para nos encantar com sua refinada, inteligente, instigante e poética literatura. Nascido em Angola e hoje radicado em Lisboa, Gonçalo M. Tavares escreve lindamente.
Em apenas um livro, que folheamos no café da livraria, eu e Inês nos apaixonamos. O livro é ´O senhor Swedenborg e as investigações geométricas´ da coleção O Bairro que consta de dez livros e alguns (dessa coleção) lançados no Brasil. A coleção é sobre um bairro de uma cidade qualquer, com vizinhos inspirados nas obras das mais geniais mentes criativas da humanidade; escritores como T.S. Eliot, Paul Valéry, Italo Calvino, Bertold Brecht, entre outros.
O aqui citado é baseado na obra do cientista e teólogo sueco Emanuel Swendenborg (1688-1772), reconhecido como o precursor do espiritismo.
No livro, o imaginário Swedenborgfazuma análise geométrica do mundo e das relações enquanto assiste a uma palestra do Senhor Elliot.São reflexões existenciais que se desenrolam em sua mente numa seqüência de figuras geométricas. quadrados, triângulos, círculos, pontos e retas com indagações e máximas que reconhecemos e nos identificamos imediatamente.
Achei genial. Uma linguagem diferente e simples, quase infantil, para dizer coisas profundas a respeito da vida, do mundo, do amor.Uma aproximação entre literatura, matemática e filosofia com efeitos cômicos e certa ironia.
Essa aproximação de linguagens aparentemente incompatíveis, é levada a sério pelo escritor para quem diferentes formas de pensar estão "naturalmente misturadas" na mente humana. Sobre isso ele disse: “Penso que todos os discursos e linguagens estão ligados naturalmente, nós é que artificialmente os separamos”.
Muito mais gente acha Gonçalo M. Tavares genial incluindo o ganhador do Prêmio Nobel, José Saramago.
Com apenas um livro e um livro com poucas palavras me tornei fã.Pretendo ler todos os livros. Por enquanto, ele ainda não abalou a posição de Mia Couto no meu coração. Mia continua o meu africano preferido. Vamos ver no futuro.
`Medianeras` na Argentina significa as janelas nas paredes sem janelas que dão para os edifícios vizinhos e que por lei, são intocáveis. Garantem a privacidade. Janelas só na frente ou para o fundo dos prédios. Os apartamentos viram cavernas escuras, sem luminosidade até que os moradores abram janelas aleatoriamente, de todo formato e tamanho, num ato de rebeldia. O que, na vida real, acaba nos tribunais.
É o que fazem os dois personagens do filmepara ter um pouco de luz e sol. Mais um ótimo filme argentino. Tornou-se lugar comum dizer que o cinema argentino é ótimo e que é melhor do que o nosso. Mas é mesmo. Eles sabem contar histórias no cinema melhor do que a gente. É fato comprovado cientificamente. Nas telas.
´Medianeras´, o filme, é excelente, divertido e atual. Fala da solidão do nosso tempo, em que se está conectado com o mundo todo mas só, solitário. São três personagens, um homem e uma mulher e um terceiro: a arquitetura da cidade de Buenos Aires. Que é a vilã do filme. Responsável pelo isolamento dos habitantes em seus minúsculos e escuros apartamentos.
O personagem masculino, Martin, é um fóbico muito divertido e romântico e é o narrador do filme. Logo no inicio, ele manda essa: “estou convencido de que as separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, o suicídio, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a inseguridade, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e da construção civil. Destes males, salvo o suicídio, padeço de todos”. Sensacional, Martin!
Martin e Mariana, o casal do filme, são vizinhos, esbarram na rua mas nunca se encontram e não se conhecem. O encontro se dá na Internet – onde mais se encontram pessoas? –e traduz fielmente o amor na era virtual.
Enquanto no filme “O homem do lado” a ´medianera´ separava e unia dois mundos completamente diferentes e antagônicos, criando um conflito, aqui, trata-se de um ato de rebeldia e uma mudança de atitude dos personagens que resolvem se abrir para as possibilidades ilimitadas que a vida oferece, abrindo uma janela.
Muito legal e independente da idade, todo mundo se identifica. Afinal, quem não quer abrir uma janela? Mesmo que simbolicamente? Eu quero.
Ian MacEwan é tão bom escritor e seus livros tão interessantes, tãobem escritos, e atuais que dá vontade de parar tudo e ler vorazmente mas, ao mesmo tempo é tão bom que temos que resistir a essa tentação e ter a atitude contrária: ler lentamente. Foi o que fiz. Demorei praticamente um mês para ler o livro Solar de apenas 336 páginas.
Depois dos ótimos A praia e Reparação (já comentados aqui), Solar, o mais recente, lançado no ano passado, tem o mesmo estilo, a mesma profundidade temática e as histórias humanas, demasiadas humanas.
Considerado o maior escritor britânico contemporâneo, ganhador de muitos prêmios, ele é um dos meus escritores favoritos.
O livro é dividido em três partes cronológicas, em 2000, 2005 e 2009 e nesse período acompanhamos Michael Beard, físico ganhador de um Prêmio Nobel que é descrito na primeira página do livro assim: “Ele pertencia àquele gênero de homens — vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes — que exercem uma atração inexplicável sobre certas mulheres bonitas. Ou achava que pertencia, o que parecia ser suficiente para transformar o desejo em realidade.”
Mais um anti-herói de Ian McEwan, o melhor de todos que já conheci nos livros dele. Ele é como na canção de Zeca Pagodinho: deixa a vida o levar. E a vida lhe apresenta mulheres, oportunidades profissionais e um emaranhado de situações que acabam por determinar mudanças de rumo e de opiniões enquanto a vida pessoal vai se desmanchando em rota de colisão com um muro como um carro desgovernado. O muro é sempre ele, seus vícios, suas convicções, suas manias, sua infidelidade, sua ambição, sua ausência de culpa...
O livro é cômico, tragicômico, sério e patético. Nessa ordem. Mas sempre divertido.
Na primeira parte, ficamos sabendo que Beard sofre por amor, sua quinta mulher, Patrice, com quem está casado há cinco anos, o está traindo com o pedreiro que fez a reforma da casa como vingança pelos onze casos extraconjugais que ele teve durante o casamento e dos quais não tem o menor sentimento de culpa ou remorso. No meio da dor de corno, ele trabalha num projeto de energia renovável a partir dos ventos, a energia eólica e conhece Tom Aldous, um jovem cientista que o admira e quer mudar seu conceito de energia eólica para energia solar, Ainda na primeira parte, ele viaja para o Ártico numa expedição para conhecer in loco o aquecimento global o que rende ótimas tiradas sobre a natureza humana. Acontece o inesperado e inusitado e a história toma outro caminho.
Na segunda parte, o foco é a energia solar. Vemos um Beard mais cínico e irônico do que nunca. De Prêmio Nobel prestigiado na área acadêmica, o vemos como um homem de negócios, dando palestras pelo mundo para altos investidores em benefício da atual empresa onde está trabalhando e conseguir que seu projeto de energia solar se consolide e se torne realidade. Michael fala sobre o perigo do aquecimento, os benefícios da energia solar, inclusive com inteligentes exemplos tomados descaradamente de Tom Aldous, no tempo em este insistia para que ele desistisse da energia eólica.
Na terceira e última parte, o vemos na véspera de colocar em prática toda a teoria do capítulo anterior, num grande e megalomaníaco projeto na fronteira dos Estados Unidos com o México.
Grande personagem! Caótico, infantil – apesar de sessentão- desleixado, amoral, engraçado, cafajeste, vaidoso, e que apesar da física e do Nobel é um incurável mulherengo calvo e gordo que se satisfaz apenas com sexo, comida e bebida. Um tipo de homem que as mulheres deveriam sair correndo quando encontram mas que se jogam na caixa dos peitos dele como se não houvesse amanhã.
E há o tema de todos os McEwans: a idéia de que basta uma única merda que você faça na vida, uma palavra mal escolhida, uma brincadeira fora de hora, um mau humor, um azar, talvez causados por uma insônia, uma topada, uma dor de dente, enfim, por qualquer um de um milhão de motivos que não se pode esperar que você controle e pronto: isso pode acabar com sua vida.
De quebra, o livro nos conta como deve ser os bastidores e as motivações do meio científico e corporativo sobre o aquecimento global.
Um livro imperdível. Cheio de humor. Do melhor humor britânico.
Trecho
“Beard compartilhava confortavelmente todos os defeitos da humanidade, e ali estava, um monstro de insinceridade, amparando no braço com carinho uma mulher que imaginava poder abandonar em breve, ouvindo-a com uma expressão sensível na expectativa de que dali a alguns minutos teria de falar também, quando tudo que queria era fazer amor com ela sem preliminares, comer a refeição que ela cozinhara, beber uma garrafa de vinho e então dormir — sem a menor culpa.”
Por falar em gostar de pessoas, tem o programa de Astrid Fontenelle no GNT, Chegadas e Partidas. No inicio não quis ver, achando que era mais um reality show com o objetivo de fazer chorar.
Afinal, é gravado no aeroporto, lugar onde as pessoas estão indo e voltando e como sempre me sinto vulnerável em aeroporto, achei que seria constrangedor.
Mas não, a idéia é genial, simples e com o enorme talento de Astrid para conversar e entrevistar, o programa é emocionante e a gente chora mesmo. Não porque seja direcionado para isso nem manipulado e sim porque renova nossa a féna humanidade, nas pessoas.
É muito tocante, divertido e eu adoro. Consiste em captar histórias de pessoas que estão indo ou voltando. E como diz o slogan do programa, as pessoas sempre tem uma história para contar.
Também resgata o hábito de ouvir. Faz toda a diferença o respeito e o carinho com que Astrid ouve as histórias Não sei se outra jornalista teria a mesma sensibilidade. Ouvir o outro está se tornando um artigo de luxo no mundo de hoje, onde todos querem falar. As vezes, ao mesmo tempo, de tanta ansiedade.
Parabéns GNT, parabéns Astrid. Fiquem ligados na segunda temporada com novas pessoas e novas histórias.